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Bem-estar redefine o sucesso na carreira

Pesquisa da Cia de Talentos mostra que saúde mental, equilíbrio e reconhecimento ganham força e pressionam o RH a rever cultura, gestão e proposta de valor ao colaborador

O conceito de sucesso profissional está mudando no Brasil — e o RH precisa prestar atenção. Em vez de associar carreira apenas a ascensão hierárquica, status e reconhecimento corporativo, os profissionais passaram a incluir bem-estar, saúde mental, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e estabilidade financeira entre os principais critérios para avaliar uma trajetória profissional.

A mudança aparece na 24ª edição da pesquisa Carreira dos Sonhos – perspectivas sobre o futuro do trabalho, conduzida pela Cia de Talentos, com 73.602 respondentes em todo o país, entre jovens, profissionais de média gestão e alta liderança. O levantamento aponta que o trabalho deixou de ocupar sozinho o centro da identidade das pessoas e passou a ser visto de forma mais instrumental: importante, sim, mas como parte de um projeto de vida mais amplo.

Para o RH, o sinal é claro. O que está em curso não é apenas uma mudança de comportamento individual, mas uma transformação estrutural na forma como os profissionais escolhem empregos, avaliam ambientes corporativos e decidem permanecer ou sair de uma organização.

Carreira deixa de ser sinônimo de status e passa a incluir qualidade de vida

Os dados mostram que o antigo modelo de carreira, baseado em dedicação intensa, reconhecimento formal e crescimento contínuo, já não responde sozinho às expectativas da força de trabalho. Entre os jovens, apenas 27% afirmam estar muito ou totalmente felizes com a carreira. O percentual sobe para 44% entre profissionais de média gestão e chega a 55% na alta liderança, o que ainda assim revela um cenário longe de consenso positivo em relação ao trabalho.

A leitura do estudo sugere que essa insatisfação não está restrita a uma geração específica. Há um reposicionamento coletivo em andamento. O sucesso profissional, antes centrado quase exclusivamente em promoção e prestígio, agora incorpora elementos mais humanos e sustentáveis.

Segundo Marisa Bussacos, professora no MBA Gestão de Pessoas da USP/Esalq, a transformação é profunda e atinge a própria lógica de construção das carreiras.

“Estamos assistindo a uma ressignificação profunda da carreira. O trabalho deixa de ser o eixo central da vida e passa a compor, em igual protagonismo, um conjunto mais amplo de dimensões que incluem projetos pessoais e bem-estar”, afirma.

Na prática, isso altera o tipo de pergunta que o profissional faz ao receber uma proposta. Salário e cargo continuam importantes, mas já não bastam. O candidato quer entender que tipo de rotina terá, qual será o impacto daquele trabalho em sua saúde emocional e se a empresa oferece condições reais para uma vida mais equilibrada.

Saúde mental e exaustão moldam a nova percepção sobre trabalho

A redefinição do sucesso também é uma resposta ao custo emocional do trabalho contemporâneo. A pesquisa indica que preocupação, cansaço e ansiedade são sentimentos recorrentes entre profissionais de diferentes faixas etárias e níveis hierárquicos, revelando que a pressão não está concentrada apenas na base das organizações.

Esse cenário reforça uma tendência já percebida por RHs e lideranças: o avanço de uma cultura profissional menos tolerante a ambientes tóxicos, jornadas sem limite e relações de trabalho marcadas por desgaste contínuo. O bem-estar deixou de ser pauta acessória e passou a integrar a tomada de decisão dos profissionais.

Nesse contexto, a busca por equilíbrio entre vida pessoal e trabalho ganha força como critério de permanência e atração de talentos. Em vez de aceitar qualquer custo em nome da progressão profissional, muitos trabalhadores passaram a estabelecer limites mais claros e a valorizar empresas que respeitam tempo, saúde e qualidade de vida.

Para a área de Recursos Humanos, isso significa que políticas de saúde mental, práticas de liderança mais humanizadas e uma cultura corporativa coerente deixaram de ser diferenciais reputacionais e passaram a compor a estratégia de negócio.

Mudança pressiona empresas a rever cultura e proposta de valor ao colaborador

A transformação na relação com o trabalho também pressiona as organizações a rever modelos de gestão. Se antes bastava oferecer remuneração competitiva e oportunidades de crescimento, agora isso precisa vir acompanhado de reconhecimento, clareza, respeito ao indivíduo e coerência entre discurso e prática.

A pesquisa mostra que a falta de reconhecimento segue entre os principais pontos de insatisfação no ambiente corporativo. O problema foi citado por 43% dos jovens, 41% dos profissionais de média gestão e 33% da alta liderança como o maior incômodo no trabalho.

O dado é especialmente relevante para o RH porque indica que o desconforto com o ambiente corporativo não está apenas ligado à carga de trabalho, mas também à experiência subjetiva do colaborador dentro da empresa. Sentir-se visto, valorizado e respeitado passou a ser parte essencial da construção de vínculos mais duradouros.

A tendência, segundo a leitura do estudo, é que o mercado de trabalho entre em uma fase de recalibração. Os profissionais seguem interessados em desenvolvimento, estabilidade e crescimento, mas demonstram menor disposição para sacrificar saúde, família e vida pessoal em nome disso.

O que muda para o RH na prática

Para as áreas de gestão de pessoas, a nova configuração exige revisão de estratégias em diferentes frentes. Employer branding, retenção, liderança, bem-estar e comunicação interna passam a ter peso ainda maior na experiência do colaborador. Mais do que criar ações pontuais, será necessário repensar a jornada de trabalho sob a lógica da sustentabilidade humana.

Isso inclui revisar metas, relações de confiança, estilos de liderança, práticas de reconhecimento e benefícios ligados à saúde física e emocional. Também exige escuta ativa para compreender o que diferentes perfis de profissionais entendem por sucesso, desenvolvimento e qualidade de vida.

A mensagem que emerge da pesquisa é objetiva: profissionais não estão necessariamente buscando trabalhar menos, mas trabalhar melhor. Querem carreiras viáveis, ambientes mais saudáveis e empresas capazes de compreender que desempenho sustentável depende, cada vez mais, de equilíbrio e sentido.

No centro dessa mudança, o RH deixa de ser apenas operador de políticas e assume papel decisivo na mediação entre expectativas humanas e estratégias organizacionais. Em um mercado cada vez mais atento à experiência de trabalho, entender essa transição pode ser determinante para atrair, engajar e reter talentos.